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Defeito de fabricação

  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Sua altura está errada: salto. Seu peso está errado: dieta. Seu envelhecimento é aparente: botox. Sua barriga tem marcas: cirurgia. Sua pele tem traços: ácido. Seu cabelo tem cachos: escova. Se sentindo triste: comprimidos. Seus olhos com olheiras: maquiagem. Seu humor desregulado: remédio.

Defeito de fabricação.


Somos defeituosas. Depois de acessar todos os filtros do instagram se olhar no espelho ficou muito mais amargo, parece que nosso rosto está errado, que o nariz deveria ser mais fino, as olheiras invisíveis, a maquiagem eterna, as cores ambientes mais saturadas, a pele mais lisa. Quantos produtos temos em casa que prometem corrigir o que está errado em nós? Quantos produtos nos trazem mensagens elogiosas? Quantos incentivos para continuar a sermos o que somos, recebemos? Quantos estímulos para deixar de sermos e mudar, operar, cortar, controlar, alterar? 


Repara que o humor e emoção estão na mesma lista de defeitos. Junto da sua altura, do seu peso, da sua pele e do seu cabelo. A tristeza lhe parece desregulada?  Toma aqui um remédio. Concentração desregulada? Outro remédio. Sono desregulado? Mais um remédio. O nosso interior, nosso íntimo virou só mais uma superfície a ser corrigida. Mais uma parte do corpo que "está errada" e que, olha nossa sorte, tem correção à venda.



E o espelho já vinha te incomodando antes disso, não é de hoje. A gente nunca se viu direito no espelho. A gente aprendeu a se ver como que de fora, numa imagem exterior que parecia mais inteira, mais organizada do que a bagunça de estar dentro do próprio corpo. 


Isso já era um desencontro antigo entre o olhar e o que se vê. O filtro só pegou esse desencontro e botou uma solução. Agora você não se compara mais a um ideal que ninguém alcança, você se compara com você mesma, com uma versão sua que pode ser editada, ou que pode ser filtrada, e que existe literalmente num aplicativo. 

Nessa lógica, reparar, corrigir, melhorar são os verbos certos: nada nesse mercado te diz que você está bem. O elogio não vende nada. É bem no intervalo entre o que você é e o que você "deveria" ser que tem grande margem de lucro. A correção e a falta nascem juntas, no mesmo parto. Não tem necessidade de correção sem que antes se invente, com precisão, o que precisa ser corrigido no corpo, principalmente, feminino.

Os remédios pro humor, pras emoções, pra ansiedade entraram nessa fila como quem chega atrasado numa festa que já estava rolando há décadas. O diagnóstico de que no nosso íntimo, na nossa mente também tem coisa a ser corrigida encontrou um mercado inteiro pronto, funcionando, ensinando todo mundo a se olhar procurando por erros e defeitos de fábrica. 

Já corrigimos altura, peso, pele, cabelo, olheiras, humor, emoções. Tem espaço para alguma qualidade nessa lógica? Somos todas defeituosas? Sofremos disso todos os dias.


O sofrimento que se experimenta depois de se ver tão defeituosa é efeito dessa exigência de completude aburda.

É o efeito direto de uma exigência que não tem limite, escrúpulos ou constrangimento. Sempre cabe, em um sistema capitalista, mais um pouco de otimização, mais um pouco de melhora, mais um pouco de performance, mais um pouco de perfeição. Você não há de encontrar, nunca, a sensação de completude prometida.

Quantas de nós não experimenta o próprio interior e a imagem no espelho com dor?

E sofrer por existir na própria pele é devolvido pra você como um problema seu. Só seu. Resolvível com seus próprios recursos: sua própria dieta, seu próprio remédio, sua própria terapia, seu próprio filtro. Você vira responsável por corrigir sozinha os efeitos de uma lógica estrutural e coletiva, mas a responsabilização individualista faz parte da manutenção do lucro. Só assim temos a privatização do mal-estar. Cada uma cuidando da própria ansiedade em casa, do próprio peso em casa, da própria pele em casa. Fica mais fácil, pra quem lucra com essa exigência, que cada uma experimente o defeito como próprio, como de fábrica. 

Os defeitos são, de fato, fabricados.



 
 
 

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